terça-feira, 23 de outubro de 2007

Imitar a si próprio, fingir que existe

O processo de autoria se constitui na separação entre o “Eu” e o “Ele”. O “Eu” existe enquanto escrevo e o “Ele” quando finalizo a escrita. A caneta que fere o papel é a mesma que o fecunda, que deposita nele, que é útero, as sementes de uma vida que pode se fortalecer e crescer, bem como morrer.

Escrever é jogar com a linguagem, inventar e reinventar o mundo com representações diversas daquilo que vemos e remodelamos esteticamente para dar vida às palavras, às coisas, aos sentimentos. O caráter lúdico da escrita é o que motiva o autor: porque é a oportunidade de liberdade que o faz se sentir confortável para virar todas as verdades pelo avesso, fazendo delas mentiras que tagarelam e transformando-as em certezas consentidas.

É por isso que eu escrevo: porque escrevendo eu não falo de mim, mas mostro o que eu fui em um dado momento da minha vida; porque eu não falo do mundo num instante chamado agora, mas de um mundo que foi num instante ontem e de um mundo que pode ser num instante amanhã.

Escrevo porque gosto de imitar e de fingir. Imitação e fingimento que não são falsificações, mas um entrecruzamento de palavras que dizem coisas produzidas por um entrecruzamento de olhares que vêem coisas que são palavras. Tudo de uma forma diversa, jamais única; sempre de uma maneira que se move em todas as direções, nunca estática.

Por essa razão, entender um autor de uma única forma é encerrá-lo e condená-lo a uma capacidade limitada, quase tetraplégica. A escrita promove uma fragmentação da identidade do autor, lançando-o em mil direções que se distanciam, se chocam, se fundem, se repelem. Porque um autor também é uma imitação de si próprio, que deixa de se reconhecer no que escreveu ontem porque hoje já é outro e já vê o mundo diferente. Desse modo, se faz necessário dizer que o autor vê na escrita o simulacro do mundo e de todas as coisas que o compõe.